Obesidade no Brasil mais que dobra em duas décadas e revela crise de saúde

Dados do Vigitel mostram avanço acelerado da doença; especialista alerta para impacto do ambiente alimentar e do sedentarismo

A obesidade no Brasil mais que dobrou em menos de duas décadas e já atinge um em cada quatro adultos nas capitais do país. Dados recentes do Vigitel, sistema de vigilância do Ministério da Saúde, mostram que a prevalência saltou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024 — um crescimento de 118%. O aumento foi observado tanto entre homens quanto entre mulheres e em todas as faixas etárias e níveis de escolaridade.

Imagens: divulgação internet

Entre as mulheres, a taxa passou de 12,1% para 26,7% no período analisado. Entre os homens, subiu de 11,4% para 24,4%. A aceleração mais intensa, nos últimos cinco anos, ocorreu na faixa de 25 a 34 anos. O cenário é reforçado por outros levantamentos: pesquisa Datafolha apontou que seis em cada dez brasileiros adultos estão com sobrepeso ou obesidade. Entre crianças, estudo do Cidacs/Fiocruz Bahia indica que, aos nove anos, 30% dos meninos e 28,2% das meninas apresentam sobrepeso, enquanto a obesidade já atinge dois dígitos nesta faixa etária.

Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, os números revelam uma transformação estrutural no modo de vida da população. “Não se trata apenas de uma alteração na composição corporal. O que se observa é a consequência direta de um ambiente obesogênico, caracterizado pelo estímulo constante ao consumo alimentar e pela progressiva redução do movimento como componente natural da rotina diária”, afirma.

Médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles

Segundo o especialista, os alimentos ultraprocessados exercem papel central nesse processo. “Esses produtos são formulados com o objetivo de estimular o consumo excessivo. A combinação de açúcar, gorduras, sódio e características sensoriais que conferem elevada palatabilidade interfere nos mecanismos fisiológicos de saciedade e favorece o consumo repetitivo”, explica Robles. Para ele, a lógica de mercado tornou esse tipo de alimento mais acessível do que opções in natura, criando um desequilíbrio que impacta diretamente a saúde pública.

O sedentarismo também contribui para o avanço da doença. “Observa-se um aumento significativo do tempo de exposição a telas, associado à substituição de atividades que demandam esforço físico por comportamentos de maior conforto e menor gasto energético. O sedentarismo deixou de ser uma condição eventual e passou a configurar um padrão social”, destaca o médico.

O Brasil estabeleceu como meta, no Plano de Dant 2021-2030, manter a prevalência de obesidade adulta em até 20,3%, índice já ultrapassado desde 2020. Embora o Ministério da Saúde afirme investir em políticas de promoção da atividade física e na divulgação do Guia Alimentar para a População Brasileira, os dados indicam que o desafio permanece crescente.

Para Robles, o debate precisa fugir de simplificações. “Não se trata de atribuir culpa exclusivamente ao indivíduo, tampouco de isentá-lo integralmente de responsabilidade. O ambiente contemporâneo impõe barreiras significativas ao autocontrole; entretanto, este permanece um elemento fundamental na prevenção e no manejo da obesidade. A recuperação da autonomia sobre os próprios hábitos configura-se como uma necessidade em saúde coletiva”, conclui.

Mais do que uma estatística em ascensão, a obesidade tornou-se um indicador de mudanças profundas no estilo de vida da sociedade brasileira — e um alerta sobre o futuro do sistema de saúde.

Por Carlos Nathan

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