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Um ano de “canetas emagrecedoras” no Brasil: médico lembra que emagrecimento exige cuidado com a mente

Novos medicamentos de perda de peso mudaram drasticamente o tratamento da obesidade, mas perda de músculos, carências nutricionais e mudanças na relação com a comida reforçam necessidade de acompanhamento

Pouco mais de um ano depois da aprovação da tirzepatida, primeira “caneta emagrecedora” a chegar no Brasil para o controle crônico do peso e da diabetes, os medicamentos do mesmo tipo que foram surgindo consolidaram uma mudança importante no tratamento da obesidade. Os resultados que chamam atenção na balança, entretanto, vieram acompanhados de um novo alerta: não basta perder peso rapidamente. É necessário observar como esse emagrecimento afeta os músculos, a nutrição e até a saúde mental do paciente.

Comercializada como Mounjaro, a tirzepatida teve sua indicação para perda e manutenção de peso aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em junho de 2025. O medicamento atua nos receptores de GIP e GLP-1, aumentando a saciedade e reduzindo a ingestão de alimentos. No estudo SURMOUNT-1, a perda média chegou a 20,9% do peso corporal após 72 semanas entre os pacientes que receberam a dose mais elevada.

Para o médico nutrólogo Dr. José Israel Sanchez Robles, esses medicamentos representam um avanço importante no tratamento da obesidade, mas não devem ser encarados como uma solução isolada. “As canetas mudaram significativamente o tratamento porque possibilitaram resultados que eram mais difíceis de alcançar com as opções disponíveis anteriormente. Mas o sucesso terapêutico não pode ser avaliado apenas pelo número de quilos perdidos. É preciso observar a redução da adiposidade, especialmente a visceral, a preservação da massa muscular, a melhora da saúde cardiometabólica, da capacidade funcional e da qualidade de vida”, afirma.

Médico nutrólogo Dr. José Israel Sanchez Robles

A preocupação ganhou força com um consenso publicado em julho de 2026 pela Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, pela Federação Europeia dos Nutricionistas e pela Coalizão Europeia de Pessoas com Obesidade. O documento apresenta recomendações nutricionais, funcionais e psicológicas para adultos tratados com medicamentos à base de incretinas.

Como o apetite diminui, o paciente pode consumir menos proteínas, vitaminas, minerais, fibras e água. Parte do peso perdido, nesse cenário, pode vir da massa muscular, e não apenas da gordura. Idosos e pessoas que já apresentam alguma deficiência nutricional estão entre os grupos que exigem maior atenção.

“Uma perda de peso expressiva pode ser um excelente resultado, mas o número na balança, isoladamente, não traduz saúde. É preciso avaliar a composição corporal e garantir a preservação da massa muscular, da força e de um adequado estado nutricional. Quando há uma redução importante da ingestão alimentar, como pode ocorrer durante o tratamento, cada escolha nutricional ganha ainda mais relevância: não basta comer menos, é preciso comer melhor”, alerta o Dr. José Israel.

O consenso recomenda atenção à ingestão de proteínas e fibras, à hidratação e a possíveis carências de ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco. Náuseas, vômitos, refluxo, diarreia e prisão de ventre também precisam ser acompanhados. Dependendo do caso, o manejo pode envolver mudanças alimentares e aumento mais lento da dose, sempre sob orientação profissional.

A saúde mental aparece como outro ponto relevante. As canetas podem reduzir a compulsão, a fome emocional e o chamado “ruído alimentar”, expressão usada para descrever pensamentos frequentes e insistentes sobre comida. Essa mudança tende a ser positiva, mas também pode revelar problemas emocionais que antes eram compensados pela alimentação.

“A alimentação não atende apenas a uma necessidade biológica. Ela também está relacionada ao prazer, às memórias, à convivência social e familiar e, para algumas pessoas, pode funcionar como uma forma de lidar com ansiedade, estresse e outras emoções. Quando essa relação com a comida se modifica de maneira significativa durante o tratamento, podem surgir mudanças na forma como o paciente reconhece e administra essas emoções. Por isso, o cuidado com a saúde mental e com o comportamento alimentar também deve fazer parte de uma abordagem integral do emagrecimento”, explica o nutrólogo.

Isso não significa que as canetas provoquem necessariamente depressão, ansiedade ou sensação de vazio. O alerta é para a necessidade de investigar a relação anterior do paciente com a alimentação e acompanhar eventuais mudanças de comportamento. Pessoas com histórico de transtornos alimentares, compulsão, depressão ou ansiedade podem precisar do apoio de psicólogos ou psiquiatras durante o tratamento.

“Tratar a obesidade não significa fazer o paciente comer o mínimo possível. O objetivo é reduzir os riscos associados ao excesso de adiposidade, melhorar a saúde e construir estratégias que possam ser mantidas no longo prazo. A medicação pode ser uma ferramenta muito eficaz nesse processo, mas deve estar inserida em um cuidado mais amplo, que contemple alimentação adequada, atividade física, sono, preservação da massa muscular e atenção à saúde emocional e ao comportamento alimentar”, reforça o médico.

A própria Anvisa determina que a tirzepatida seja utilizada em conjunto com dieta e atividade física. Desde junho de 2025, medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy também são vendidos com retenção da receita médica, medida adotada diante do número de eventos adversos relacionados ao uso sem indicação adequada.

Depois de pouco mais de um ano, José Israel destaca que um dos principais aprendizados é que medicamentos cada vez mais eficazes para a perda de peso também exigem acompanhamento clínico criterioso. “Hoje, o desafio não é apenas alcançar uma perda de peso significativa, mas garantir a qualidade desse emagrecimento: reduzir o excesso de gordura, preservar ao máximo a massa muscular e a capacidade funcional, manter um estado nutricional adequado e cuidar também da saúde emocional. O número na balança é apenas uma parte do resultado”, afirma.

Por Carlos Nathan

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