Médico explica por que açúcar nos primeiros anos pode estar associado a um maior risco de demência
Estudo com mais de 64 mil pessoas relaciona a restrição do ingrediente na gestação e na infância ao atraso dos primeiros sintomas de declínio cognitivo
O consumo excessivo de açúcar durante a gestação e nos primeiros dois anos de vida pode produzir efeitos que só se manifestam décadas mais tarde. Evidências científicas recentes sugerem que a nutrição nesse período crítico do desenvolvimento exerce influência direta sobre a formação da chamada reserva cognitiva — conjunto de mecanismos que confere ao cérebro maior capacidade de resistir às alterações associadas ao envelhecimento e às doenças neurodegenerativas. Segundo o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, esse conceito reforça a importância da alimentação precoce como um dos pilares da saúde cerebral ao longo da vida.
“A gestação e os primeiros anos de vida representam uma janela crítica para o desenvolvimento cerebral. Nesse período, o cérebro passa por intensa formação de conexões neurais e por processos fundamentais de maturação que influenciam a aprendizagem, a memória e o desempenho cognitivo. A nutrição adequada nessa fase não determina apenas o crescimento infantil, mas também pode exercer impacto duradouro sobre a saúde cerebral e a capacidade de enfrentar o envelhecimento nas décadas seguintes.”, explica o médico.
Publicado na revista científica Neurology, o estudo analisou dados de mais de 64 mil pessoas nascidas no Reino Unido durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Naquele período, o país adotou o racionamento de alimentos, incluindo o açúcar. A venda do ingrediente somente foi completamente liberada em 1953.
Essa mudança permitiu aos pesquisadores comparar pessoas expostas a diferentes níveis de consumo de açúcar durante a gestação e a primeira infância. Os participantes foram acompanhados por até 15 anos, e os dados passaram por ajustes para fatores como idade, sexo, hipertensão e diabetes.
Os resultados indicam que a restrição do açúcar desde a gestação até o primeiro ano de vida esteve associada a uma redução de 21% no risco de demência. Quando o consumo limitado permaneceu até os dois anos, a diminuição chegou a 23%. O aparecimento dos primeiros sintomas também ocorreu, em média, dois anos e meio mais tarde.
“Uma redução de 23% no risco é um achado clinicamente relevante, sobretudo diante de uma doença complexa, multifatorial e ainda sem cura. No entanto, é essencial compreender que os resultados apontam para uma associação estatística, e não para uma relação causal. Em outras palavras, o estudo não permite afirmar que o consumo de açúcar, isoladamente, seja responsável pelo desenvolvimento da demência.”, ressalta o Dr. José Israel.
Parte dos participantes também realizou exames de ressonância magnética cerebral. As imagens mostraram que as pessoas expostas ao racionamento apresentavam maior volume total de substância cinzenta e menor quantidade de alterações na substância branca, características associadas a uma condição cerebral mais favorável.
Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores reconhecem limitações. O trabalho é observacional e foi baseado em um acontecimento histórico, sem acompanhamento prospectivo dos participantes desde o nascimento. Também é difícil separar completamente os efeitos do açúcar de outras condições sociais, alimentares e comportamentais presentes durante o período analisado.
Ainda assim, a relação é considerada biologicamente plausível. O consumo excessivo de açúcar favorece o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina, diabetes e hipertensão, condições já associadas ao aumento do risco de comprometimento cognitivo.
“O impacto do açúcar sobre a saúde cerebral parece ocorrer, em grande parte, por mecanismos indiretos. Uma alimentação rica em açúcares adicionados favorece o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Ao longo do tempo, essas alterações comprometem a função vascular, aumentam o estresse oxidativo e a inflamação sistêmica, criando um ambiente biológico associado ao maior risco de comprometimento cognitivo e demência.”, afirma o nutrólogo.
O alerta não significa que gestantes ou crianças devam excluir indiscriminadamente todos os carboidratos da alimentação. Frutas, leite, cereais e outros alimentos naturais podem conter açúcares, mas também fornecem vitaminas, minerais, fibras e outros nutrientes importantes. A preocupação principal está no consumo frequente de açúcar adicionado, doces, bebidas açucaradas e produtos ultraprocessados.
“Os achados não justificam medidas radicais nem devem ser interpretados como motivo de culpa para as famílias. A principal mensagem é preventiva: durante os primeiros anos de vida, recomenda-se priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados e evitar a introdução precoce de produtos com alto teor de açúcares adicionados. Mais do que restringir um único nutriente, o objetivo é favorecer um padrão alimentar capaz de sustentar o desenvolvimento saudável do cérebro e do organismo como um todo.”, orienta Dr. José Israel.
Outros estudos também associam padrões alimentares saudáveis a uma maior proteção neurológica. A dieta Mind, que reúne características das dietas mediterrânea e Dash, prioriza verduras, frutas vermelhas, grãos integrais, peixes, azeite de oliva e castanhas. Pesquisas relacionam sua adoção a menor risco de neurodegeneração, mortalidade e envelhecimento biológico acelerado.
Os adoçantes artificiais, por sua vez, não devem ser tratados automaticamente como substitutos inofensivos. Uma pesquisa brasileira que acompanhou mais de 12 mil pessoas durante oito anos encontrou associação entre o consumo elevado dessas substâncias e uma taxa 62% maior de declínio cognitivo global.
Para o Dr. José Israel, os dados reforçam a necessidade de pensar a prevenção desde cedo. “A saúde cerebral não começa a ser construída na terceira idade. Ela é resultado da interação entre fatores que atuam ao longo de toda a vida, como alimentação, prática regular de atividade física, qualidade do sono, controle dos fatores de risco cardiovasculares e estímulo cognitivo e social. Quanto mais precocemente esses hábitos são incorporados, maior tende a ser a reserva cognitiva e, potencialmente, a capacidade do cérebro de enfrentar o processo de envelhecimento.”, conclui.
Por Carlos Nathan
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