Enfermeiras navegadoras ajudam pacientes com câncer a não se perder entre o diagnóstico e o tratamento
Em um único dia podem receber até sete novos pacientes e realizam o acompanhamento desde a descoberta da doença, ajudando a superar barreiras burocráticas e fazendo a ponte com médicos e equipes de saúde
GOIÂNIA, 21/10/2026 – Receber a notícia de que está com câncer é apenas o primeiro passo de uma jornada que pode envolver exames, estadiamento, autorizações, definição de protocolos, consultas, quimioterapia e uma série de decisões. Para o paciente, porém, tudo isso acontece enquanto ainda tenta assimilar o impacto do diagnóstico.
É nesse intervalo entre a notícia e o início do tratamento que entra uma profissional que começou a ganhar espaço na oncologia brasileira, a enfermeira navegadora. Na prática, ela acompanha o paciente ao longo do percurso, identifica obstáculos, ajuda a organizar as próximas etapas e funciona como elo entre quem está sendo tratado e os diferentes profissionais e setores envolvidos no cuidado.
No Brasil, a navegação de pacientes já ganhou regulamentação específica para a enfermagem. Em janeiro de 2024, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) publicou a Resolução nº 735, que normatiza a atuação do enfermeiro navegador e estabelece que a atividade de navegação, no âmbito da equipe de enfermagem, é privativa do enfermeiro.
Um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), aponta que a navegação oncológica busca eliminar barreiras ao tratamento e facilitar o acesso aos cuidados. A pesquisa ouviu 27 enfermeiros navegadores no Brasil e identificou que a prática ainda está em evolução e apresenta diferentes formas de organização entre os serviços.
Em Goiás, a atividade já está consolidada dentro da jornada do paciente desenvolvida pelo Hemolabor – Centro Integrado de Oncologia, Hematologia e Diagnóstico. Para Carolina Silva Souza, enfermeira que atua na navegação oncológica no Hemolabor, o trabalho é muito importante e começa praticamente no instante em que o paciente recebe o diagnóstico.
“O nosso objetivo aqui, enquanto enfermeira navegadora, é acompanhar a jornada do paciente. Desde o momento que ele recebe um diagnóstico. A partir desse primeiro contato, passamos a acompanhar uma série de etapas. É preciso entender o protocolo indicado, avaliar a necessidade de cateter, verificar exames, orientar sobre possíveis efeitos do tratamento e acompanhar processos de autorização.”, explica.
Assim que o médico comunica a doença, a profissional é acionada para iniciar o acolhimento e acompanhar os primeiros passos daquela jornada. Ela apresenta a instituição e a equipe que estará envolvida no cuidado, explica as etapas iniciais do tratamento, identifica necessidades específicas e acompanha questões como exames, protocolos, autorizações e agendamentos. A partir desse primeiro encontro, o paciente passa a ter uma referência dentro da instituição para recorrer quando surgirem dúvidas ou dificuldades.
O trabalho da profissional também inclui sugestões para amenizar reações físicas vindo pelo tratamento, como a touca de resfriamento capilar, para pacientes interessados em reduzir a queda de cabelo associada a determinados tratamentos “A gente tenta agilizar o processo do paciente para que ele consiga receber o tratamento o quanto antes e ter o mínimo de impacto na sua saúde e bem estar ”, afirma Carolina.
Cinco a sete novos pacientes em um dia
Segundo a instituição, são recebidos, em média, cinco a sete pacientes novos por dia. São pessoas que muitas vezes chegam com biópsias e outros exames, mas ainda precisam passar por etapas como o estadiamento antes da definição completa do percurso terapêutico.
Carolina comenta que, ao longo de poucos dias, uma enfermeira pode iniciar o acompanhamento de dezenas de pessoas, cada uma com necessidades e obstáculos diferentes. “A carteira de pacientes é dinâmica. Enquanto alguns ainda estão no início da investigação, outros já estão em tratamento e podem procurar a navegadora diante de dúvidas, sintomas ou dificuldades para avançar em alguma etapa”,.
A profissional acrescenta que existe uma característica desse trabalho que não aparece em uma lista de procedimentos, que é a necessidade de traduzir um universo complexo para alguém que acabou de entrar nele. Carolina costuma usar uma metáfora para explicar a função.
“Eu costumo dizer para eles que eu sou a lanterna no túnel escuro que eles entraram agora. É muita informação e ninguém espera ter um câncer em tal momento da vida, que é um diagnóstico muito difícil. Então a gente está aqui justamente para ser esse facilitador para ele”, afirma.
A enfermeira navegadora não substitui o médico. Seu papel é integrar o percurso e facilitar a comunicação entre o paciente e a equipe responsável pelo tratamento. Segundo Bárbara Cristina Rodrigues, profissional que também atua no Hemolabor, a ausência de uma referência pode aumentar dúvidas e inseguranças, especialmente quando o paciente recebe informações complexas em um momento de grande vulnerabilidade.
“A gente acaba sendo esse direcionamento para ele, essa bússola. Na prática, isso pode significar acompanhar uma pendência, fazer contato com outro setor, levar uma dúvida ao médico ou orientar o paciente sobre o próximo passo”, resume.
No Brasil, a política de navegação de pessoas com câncer passou a integrar formalmente as políticas públicas de atenção oncológica. Uma portaria do Ministério da Saúde publicada em 2025 define a navegação como a busca ativa e o acompanhamento individual dos processos envolvidos no diagnóstico e no tratamento.
A experiência de Bárbara mostra que essas barreiras podem ser ainda maiores para pessoas em situação de vulnerabilidade. Ela relata atender pacientes analfabetos, pessoas com dificuldades de fala, pacientes com deficiência e pessoas que não têm alguém para acompanhá-las.
“A navegação é justamente a acessibilidade desse paciente ao tratamento. Em determinadas situações, o trabalho pode ser tão concreto quanto acompanhar fisicamente alguém dentro da instituição. O nosso trabalho é pegar na mão e sair andando com o paciente”, resume.
A busca por agilidade é outro ponto central da navegação. No SUS, a legislação estabelece que pacientes com neoplasia maligna devem iniciar o primeiro tratamento em até 60 dias após a confirmação do diagnóstico, conforme a legislação citada em estudo publicado na Cogitare Enfermagem.
Na prática da navegação, a preocupação com o tempo aparece na tentativa de identificar e resolver pendências que possam atrasar o início do cuidado. “A nossa ideia é ter o paciente do início da consulta aqui e iniciar o tratamento o quanto antes, porque é um tempo que eles contam de vida ali. Aqui a gente depende de uma rede interna. A gente nunca trabalha só, então tem uma equipe junto aí com a gente para ajudar no processo”, afirma Carolina..
Além da gestão, a profissional também precisa conhecer os protocolos de quimioterapia e também compreender processos relacionados a convênios, solicitações e autorizações.
Essa característica aparece também na literatura brasileira. O estudo publicado pelo INCA em 2025 descreve a atuação do enfermeiro navegador como relacionada à gestão do fluxo e ao direcionamento da assistência, acompanhando o caminho do paciente desde o diagnóstico até o encerramento daquele percurso de cuidado.
Bárbara destaca que, com o passar do tempo, o acompanhamento também ganha uma dimensão emocional. A convivência ao longo das diferentes etapas do tratamento faz com que pacientes e profissionais construam uma relação de confiança que vai além das orientações e dos cuidados relacionados à doença. As enfermeiras passam a ser procuradas não apenas para esclarecer dúvidas sobre o tratamento, mas também como pessoas de referência diante de situações do cotidiano.
“Por conta da convivência, criamos uma relação íntima com o paciente. E, quando chega o momento da alta, essa separação também pode ser difícil. Depois de acompanhar toda a jornada, o vínculo que foi construído não termina simplesmente quando o tratamento acaba”, conta Bárbara.
ASSESSORIA DE IMPRENSA HEMOLABOR
WP Conectada
- Entidades divulgam manifesto pela valorização do serviço público
- Milei lança plano para demitir 21 mil servidores na Argentina
- IBGE é autorizado a abrir 325 vagas temporárias
- Ministério da Saúde inicia oferta de novos medicamentos oncológicos no SUS
- Enfermeiras navegadoras ajudam pacientes com câncer a não se perder entre o diagnóstico e o tratamento
