“A pandemia nos deu novas perspectivas sobre as desigualdades na escola”

A cientista social Renata Guedes Mourão Macedo conta como precisou adaptar sua pesquisa de pós-doutorado para compreender disparidades digitais relacionadas à educação

Renata Macedo: entrevistas com professores deram lugar à pesquisa remota

Léo Ramos Chaves

Após terminar meu doutorado em antropologia social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo [FFLCH-USP], no começo de 2020 passei a integrar um projeto apoiado pela FAPESP e coordenado pela professora Diana Gonçalves Vidal, da Faculdade de Educação [FE-USP]. O objetivo do estudo é investigar a circulação de  saberes e práticas educacionais  entre o Brasil e outros países do mundo desde o início do século XIX até os dias de hoje.

Como já trabalhava com a intersecção entre ciências sociais e educação, mais especificamente com marcadores sociais da diferença e desigualdades, desenvolvi minha pesquisa de pós-doutorado nessa mesma linha, investigando o ambiente escolar inclusive para entender como as políticas educacionais sobre diversidade têm sido pensadas desde a década de 1980. Porém tudo que planejei teve de ser repensado por causa da pandemia. Eu pensava em realizar uma investigação presencial na Escola de Aplicação da USP, concebida para atender principalmente filhos de funcionários e professores da instituição, mas que também atende a comunidade externa. Meu filho de 10 anos estuda lá.

Eu e outros pesquisadores que integram esse projeto estávamos preparados para fazer entrevistas com professores, etnografias no ambiente escolar e analisar documentos, mas tivemos de transpor tudo para o ambiente on-line. Com isso, modificaram-se o próprio objeto e as questões de pesquisa. Como cientista e mãe engajada nas questões da escola, comecei a observar de forma mais atenta o que atualmente designamos “desigualdades digitais ligadas à educação”. Tendo a Escola de Aplicação perfis muito diversos de crianças e jovens, em diálogo com a equipe escolar percebemos que muitos não tinham acesso a computadores e internet de qualidade e durante meses estiveram completamente afastados de qualquer atividade escolar. Foram se desligando do ensino, que para eles acabou virando algo cada vez mais distante.

Moro com meu filho e meu companheiro em uma casa no bairro do Butantã, próximo à USP. Quando começou a pandemia e o distanciamento social, em março de 2020, muitas crianças passaram a ficar mais na rua. Quando as encontrava, perguntava: como vai a escola, vocês estão conseguindo fazer alguma atividade on-line? Passei a observar que a sensação de fazer parte da escola estava ficando muito distante. Integro a Associação de Pais e Mestres da Escola de Aplicação e lá também começamos a perceber que essa questão era muito importante. Em abril, juntamente com a equipe escolar comecei a fazer um levantamento de quantas famílias não tinham equipamentos digitais e acesso a conexões de internet em casa para que as crianças pudessem seguir com os estudos de maneira remota. Em um universo de 715 alunos, no primeiro momento foram identificados 58 sem acesso. Mas, à medida que o segundo semestre de 2020 foi seguindo on-line, o número foi aumentando. Muitos familiares tiveram de retomar o trabalho presencial e acabaram levando consigo o único celular ou computador da família. Organizamos uma campanha, intitulada EA Conectada, que teve relativo sucesso na compra de equipamentos digitais para as crianças e jovens de menor renda.

A partir daquele momento, as reflexões sobre diversidade e desigualdade que eu pretendia desenvolver na pesquisa de pós-doutorado foram cruzadas por essa questão da desigualdade digital. Esse tornou-se, então, um ponto importantíssimo a ser discutido, pensado, diagnosticado e enfrentado. Se já tínhamos inúmeros tópicos sobre desigualdade social para pensar a educação no Brasil, de repente a questão digital tornou-se central.

Diante dessa realidade, como fica a garantia do direito à educação no país? Foram quase dois anos sem garantir esse acesso a uma parcela importante da população. Essas reflexões foram inicialmente publicadas no texto Desigualdades digitais e educação: Breves inquietações pandêmicas, em um boletim da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais.  Nele, eu e Carolina Parreira, pesquisadora do Departamento de Antropologia da USP que já vinha trabalhando essas questões, procuramos mostrar que, se a pandemia foi tão difícil para crianças e jovens, estar longe da escola foi ainda mais complexo em contextos de ausência de acesso às tecnologias digitais de educação. Posteriormente analisei o caso específico do enfrentamento das desigualdades digitais na Escola de Aplicação da USP no artigo intitulado Direito ou privilégio? Desigualdades digitais, pandemia e os desafios de uma escola pública, publicado em dossiê sobre a pandemia na revista Estudos Históricos.

A oportunidade de trabalhar com a Escola de Aplicação foi uma coincidência muito bem-vinda. A escola completou 60 anos em 2019 e tem uma história muito interessante. É uma instituição que já tem esse compromisso de servir como espaço aberto de pesquisa na  USP.

Desde que meu filho nasceu, em 2011, durante o mestrado, minha rotina acadêmica tem sido bastante marcada pela maternidade. Apesar da sobrecarga, no meu caso também teve um lado positivo porque aprendi a ser mais disciplinada. Como sou frequentadora assídua das bibliotecas da USP, aproveitava os horários em que meu filho estava na escola para trabalhar e estudar. Deixava a biblioteca só na hora de pegá-lo de volta. Senti muita falta disso quando houve o fechamento das bibliotecas. Ver a escola do meu filho encerrar suas atividades sem previsão de volta também foi um choque muito grande.

Lembro daquele início de março de 2020 em que acompanhávamos as notícias de outros locais do mundo e isso dava a sensação de que o vírus estava se espalhando cada vez mais. No dia 8 de março eu participava de uma reunião na USP e as pessoas já estavam com receio de chegar perto umas das outras. Começamos a nos cumprimentar de longe e, ali, percebi o que seria o distanciamento. Já havia sido identificado um primeiro caso de Covid-19 na FFLCH. E depois veio a percepção de que, além da tristeza gerada pelas mortes, eram gritantes as diferenças relacionadas ao acesso à saúde e moradia, com a crise econômica deixando as pessoas cada vez mais empobrecidas.

Mesmo com todas as demandas da casa, consegui estabelecer uma rotina de trabalho. No esforço de manter horários, tive que redimensionar o tempo com meu filho, realizando as atividades escolares e lúdicas conjugadas a períodos muito fragmentados de pesquisa e reflexão. E, quando estava trabalhando, sempre ficava pensando se ele estava havia muito tempo assistindo à televisão ou jogando on-line.

Moramos em uma casa pequena, mas que tem um quintal onde podemos tomar sol e brincar com o cachorro. Nos meus momentos de folga, aproveitei para ler biografias como as de Claude Lévi-Strauss [1908-2009] e Angela Davis. E conversei muito com meu companheiro, que também é pesquisador e professor do Departamento de Sociologia da USP.

No início deste ano, mesmo com todas as dificuldades, fui selecionada para lecionar na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Desde fevereiro sou responsável por duas disciplinas: história da medicina e ciências sociais aplicadas à medicina. Sempre gostei muito de trabalhar nessa perspectiva interdisciplinar das ciências sociais, estabelecendo pontes com outras áreas do conhecimento, como educação e saúde. No meu doutorado, quando estudei o ensino superior, fiz uma etnografia dos cursos de pedagogia e enfermagem, analisando questões de gênero e estratificação social. Agora estou trazendo esse olhar das questões de gênero e diversidade para o universo da saúde. As aulas começaram on-line e no segundo semestre a faculdade adotou o sistema híbrido. Foi então que pude conhecer a escola propriamente dita e a sala em que passei a trabalhar, além de encontrar os colegas de trabalho.

Nesse meio tempo reassumi algumas aulas que dava nos cursos de pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Desde abril, integro a Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, que tem sido importante para a discussão sobre como as questões de gênero e outros marcadores sociais da diferença incidem no trabalho de pesquisadoras de diferentes áreas.

Faz pouco tempo que tomei a terceira dose da vacina contra Covid-19. Depois disso me sinto mais segura e otimista, apesar de reconhecer a necessidade de me manter alerta, e de me preocupar muito com a situação social e econômica do país. Meu filho voltou a frequentar a escola em outubro, mas durou pouco tempo, pois logo começaram as férias de verão. Vejo 2022 não como uma retomada do que fazíamos antes, mas como uma readaptação. Apesar de todas as dificuldades que teremos pela frente, estou animada para voltar a conviver com os alunos e poder estar mais próxima das pessoas.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Denilson Alves

Editor do Portal Nosso Goiás